A Parábola da Semente

A Semente

Eu era uma semente. Você me jogou no seu quintal meio sem jeito e disse:

– Vamos ver se vai nascer!

Você não me regou e até me esqueceu, mas por um milagre eu nasci e você disse:

– Olhe! Nasceu. A semente vingou!

Mas você não me nutriu e nem se preocupou com a luz do sol, com o frio ou com a água, meu alimento, mas por um milagre eu cresci e você disse:

– Essa planta está crescendo, acho que ela deve se virar sozinha, espero que não infeste o meu quintal.

Mas eu não infestei o quintal e continuei a crescer e por um milagre até dei lindas flores na primavera e você disse:

– Vou arrancar essas flores para dar de presente.

Mas você se cortou nos meus espinhos, me praguejou e me xingou. Você arrancou alguns galhos importantes pra mim, mas por um milagre eu continuei a crescer e você me esqueceu.

Muito tempo depois, um dia você olhou pro quintal e reparando em mim disse:

– Veja só! Até que deu frutos essa árvore. Mas devem ser azedos e alguns estão até podres. Logo vão atrair insetos e pragas. Vou ter que cortar essa árvore!

Mas você não me cortou. Já estava tudo preparado pro meu dia final quando você por um milagre teve que se mudar de casa. A nova família que chegou ficou encantada comigo e escolheu a casa também pela minha presença. As crianças brincavam nos meus galhos, os jovens colhiam os meus frutos, os adultos cuidavam de mim e todos enfim recebiam de coração alegre aquilo que eu vim compartilhar com eles nessa Terra.

Vês? Apesar de tudo: dos seus desleixos, dos xingamentos, das pragas, da indiferença e das críticas desnecessárias, eu nasci, cresci, me fortaleci, dei flores e frutos e finalmente encontrei aqueles merecedores deles.

Por um milagre você teve que ir antes de mim, mas eu não guardei mágoas, nem te critico por isso. Cada um dá o que tem na despensa. Mesmo com todos os seus atos ruins, você teve uma atitude muito boa: você me jogou no chão para que eu pudesse nascer e eu te agradeço profundamente por isso: muito obrigada!

Ass: A Semente

By Lucas Ramalho

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Juliana

São 3 horas de uma noite de verão

De joelhos no tapete segue firme Juliana

Rezando, invocando, clamando em oração:

Me livre dos deuses do chão!

Me livre dos deuses do chão!

 

Não é fácil de entender

Eles tem sede de prazer

Querem teu sangue beber

Querem te ver sofrer. Ó Juliana!

 

Pobre humana, pobre humanidade

São cobaias de mestres insaciáveis

Cavaleiros da alta sociedade

Humanos, desumanos, intocáveis

 

Há sinais nos céus e nos jornais

Há sonhos e pesadelos fatais

Que são reais e mais reais

Que simples notícias banais

 

Os deuses tem sede. Ó Juliana!

O espírito santo usa manto negro

E vai tirar o teu sossego

E vai te deixar insana.

 

Pra entender este mundo, é preciso ser louco

Não um pouco, não apenas um pouco

Mas completamente louco

 

Está tudo ao contrário, ao revés

Nada que te contaram é como é

Criaram um labirinto pra você

 

E fizeram você acreditar. Ó Juliana!

Que você é ser humana, livre e racional

Criaram todo um dama, até passou no jornal

Que você é ista, que você é isto:

Terrorista, comunista, anarquista, nazista, racista, classista, sexista.

Você está à vista, mas já foi vendida a prazo antes mesmo de nascer

Suas coisas não são suas, nem você é de você

 

Sua raiva é alimento parra os deuses do chão

Seu medo é o tempero da ração

Sua dor é néctar e apreciação

Sua morte é grande refeição

 

Não tenha medo, não tenha medo. Ó Juliana!

Descubra o caminho pra sair do labirinto.

Ele termina no fim do sofrimento.

Ele acaba quando você enxergar a luz de cima

E a luz que vem do sul

O labirinto é uma esfera plana e azul

 

Te prenderam aqui na Terra, Ó Juliana

Os deuses do chão amam você

E vão fazer de tudo pra você não saber

Que tudo é uma história pra te entreter

 

Você é Deusa. Ó Juliana!

És muito mais que o labirinto

És mais divina que os deuses do chão

Porque você tem luz!

 

A luz não alimenta as trevas

Por isso se escondem os deuses do chão

Matai a todos sem perdão

Fazei da luz a tua oração!

 

Que a fé te guie na senda escura

Que nenhum inimigo possa combater

A força divina que te cura

E que te faz vencer

 

Deixai os vermes para os deuses do chão

Deixai aqueles que querem morrer

Tu és eterna em vida e coração

Nada pode te abater!

 

Lucas Ramalho

Buenos Aires

Mundo Metafísico

Mundo Metafísico

 

Mundo metafísico, que será isso?

O que está além do que pode ser visto ou sentido?

O que está escrito nas entrelinhas?

 

Será mesmo que há algo que não se vê normalmente?

Será através de meditações, concentrações, rituais e plantas de

poder que é possível acessar este mundo?

 

O que não foi dito

O que não foi mostrado

Talvez seja mais óbvio que pensamos

 

Não é nada de metafísico

É físico mesmo, muito físico

É natural e simples como uma folha

Mas não é visto normalmente

Não porque é acessível a poucos

Mas porque aprendemos a não ver

Foram anos de condicionamento

Para que não pudéssemos ver

Um show inteiro foi colocado a nossa frente

Então não podemos ver os camarins

O que está por trás da cortina

 

O espetáculo é outro

Mas não é metafísico

Metafísico é justamente isso que vemos diariamente

Isso que chamamos de realidade

Essa vida ordinária que levamos

Essa nossa rotina é metafísica

 

É por isso que buscamos plantas, meditações, rituais,

Queremos ver o que é real

O que está por trás do show

 

E de que nos serve tudo isso?

Para nos distrair

Outro show nos foi mostrado

Tão metafísico quanto esse que vivemos e nada disso é real

 

Então? Onde está o real?

Na ausência.

 

É somente quando estamos ausentes

Quando saímos do show

Que podemos ver de fato

 

Querer ver nos impede de ver

Querer saber nos impede de saber

Querer ser nos impede de ser

 

Porque querer implica no eu e o eu não é real

 

Porque há tanta infelicidade no mundo?

Porque devotamos o tempo para o eu e ele não existe

 

A felicidade tem de emanar

Como um perfume naturalmente

 

Não pode ser forçada ou forjada

Comprada, conquistada ou receitada

Ela apenas emana

 

Para que emane é preciso que não haja nada que possa confundi-la

Qualquer outro odor deve se extinguir

É preciso jogar tudo fora

 

É a partir daí que naturalmente a folha emana seu perfume

É a partir daí que naturalmente a vida surge

É a partir daí que naturalmente a metafísica acaba

 

SR Lucas, 2015.       

 

Meu Karma, Meu Dharma

Em tudo que vejo, eu vejo você
Você é o meu espelho daquilo que não se vê
O reflexo da luz que vem dos seus olhos me faz brilhar
E você então me vê e eu então posso me olhar

Nu, desnudo, pelado, mergulhado no mar da inconsciência
Quem vai me resgatar?
Não ando armado porque nada pode me matar
Eu sou a própria arma
E você é Karma, você é Dharma

Meu Karma, Meu Dharma
Quando será que vou enlouquecer?
Você me arma e me desarma
Levianamente a seu bel-prazer
Você me trata e me destrata
Eu só quero te conhecer
Você reluz e me reduz
Por isso estou com você

Estou acostumado com a rotação da Terra
Mas essa Lua vai me enlouquecer
Nasci preparado pra uma guerra
Que ninguém pode vencer
É apenas Karma, é apenas Dharma
Não há muito que fazer

Não quero me esconder, não quero fugir
Deito sobre um espelho quando vou dormir
E quando sorrio para você, é você que está a sorrir
Sou um espelho enevoado, mas quero me descobrir

Eu sou você, você sou eu, mas quem somos nós?

Se tudo é feito de Luz
Você é a dança do Sol e de Vênus
Você é a flor de Lótus na Terra de Uz
Você é a Estrela Azul Regulus

Não me maltrates por favor
Pois eu sou o seu espelho, a sua dor
É apenas Karma e Dharma meu amor
Que me importa o apocalipse se o seu eclipse já é destruidor

E assim vamos nesse baile do Karma e do Dharma
Pra quem está no compasso dessa louca ciranda
Só existe uma arma:
Satchidananda
Lucas SS Ramalho

O Empresário e o Pescador

Um executivo que passava suas férias numa cidadezinha costeira, estava no cais quando viu aproximar-se um pequeno barco de pesca com um só homem a bordo. Dentro do barco brilhavam ao sol vários peixes grandes com excelente aspecto. O executivo cumprimentou o pescador pela beleza e qualidade dos peixes e perguntou quanto tempo ele havia levado para pescar peixes tão grandes.
O pescador respondeu:
– Não muito, senhor, eu diria que levei somente algumas horas.
O executivo espantado falou-lhe:
– Certamente você é um bom pescador e esses peixes são excelentes. Então porque não ficou mais tempo no mar para pescar mais peixes?
O pescador riu.
– Porque faria isto, senhor? Eu ganho o suficiente para sustentar a mim e a minha família. Eu não preciso pescar mais peixes.
O executivo então perguntou:
– Mas o que você faz o resto do dia?
O pescador respondeu:
– Eu estou completamente livre para fazer o que eu quero. Brinco com meus filhos, tiro uma soneca com a minha mulher e vou à cidade no final da tarde onde bebo e toco violão com os meus amigos. Eu tenho uma vida cheia e boa, senhor.
O executivo zombou dele:
– Ah! Você pensa que tem uma vida boa… e tirando do bolso um cartão de visitas completou: eu sou graduado em administração de empresas e posso ajudá-lo. Pelo que vejo, você poderia pescar por mais tempo em cada dia e de acordo com o produto da sua pesca, você rapidamente poderia comprar um barco maior. Depois de algum tempo venderia esse grande barco e compraria vários barcos e até eventualmente, teria a sua própria frota. Certamente precisaria contratar uma equipe de pescadores, mas não se preocupe, pois eu conheço a pessoa certa que pode nos ajudar a recrutá-los.
Enquanto falava, o executivo fazia anotações e desenhava diagramas. E continuou dizendo:
– Em alguns anos, ao invés de vender para um intermediário, você poderia vender diretamente para as fábricas ou, quem sabe, ter a sua própria fábrica para industrializar os peixes. Desse modo você controlaria o produto, o processamento e a distribuição. Lógico que você precisaria se mudar desse vilarejo para uma cidade maior. Certamente, você entende, precisaríamos melhorar o seu perfil no mercado. Daí, provavelmente você teria que se mudar para um centro mais dinâmico, uma metrópole, com acesso a grandes mercados no mundo, onde poderia controlar o sucesso de seus negócios e expandi-los ainda mais.
O executivo parou de falar, meio sem fôlego, e esperou pelos agradecimentos por parte do pescador por tão sábios conselhos. Mas, este, ponderou:
– Mas senhor, quanto tempo isso levaria?
O executivo, fazendo anotações e utilizando a sua calculadora, replicou:
– Ah! Acredito que alguma coisa entre 15 a 20 anos.
– E o que vai acontecer então? Perguntou o pescador.
O executivo riu e disse:
– Essa é a parte mais inteligente e brilhante desse plano. No momento certo – e eu ficarei muito contente em avisá-lo – você abrirá o capital da empresa colocando as ações na bolsa de valores, vendendo-as para o público e tornando-se muito rico. Poderá ganhar centenas de milhões.
– Centenas de milhões, senhor? Perguntou o pescador coçando o queixo. E depois o que acontecerá?
– Bem, você poderá se aposentar como um homem muito rico, e escolher a vida que deseja para você e a sua família. Por exemplo, poderá se mudar para uma cidadezinha costeira, e fazer tudo aquilo que gosta: pescar, brincar com seus filhos, tirar uma soneca com a sua mulher e ir à cidade todos os finais de tarde para beber e tocar violão com os seus amigos. Você teria uma vida cheia e boa.
O pensador pensou por um momento e disse:
– Muito obrigado pelos seus conselhos, senhor. Não me leve a mal, mas se o senhor não se importar eu acho que pouparei 15 anos da minha vida e ficarei exatamente onde e como estou.

Anjo de Luz

Anjo de luz que clareia a noite escura
Vem cantar a canção do amor e da cura
 
Anjo de luz que escuta o nosso anseio
Vem trazer bem serena paz em teu seio
 
Anjo de luz que sopra em nossos ouvidos
A palavra que abre os caminhos escondidos
 
Anjo de luz, quem és tu que nos traz a verdade?
Eu sou o brilho dos olhos da humanidade
 
Eu sou a voz ressoando dentro de ti
Eu sou você, eu sou nós, estou lá e aqui
 
Lucas Ramalho

O Silêncio Indígena

“Nós os índios, conhecemos o silêncio; não temos medo dele. Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras. Os nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio e transmitiram-nos esse conhecimento. “Observa, escuta, e logo atua”, diziam-nos. Esta é a maneira correta de viver. Observa os animais para ver como cuidam dos seus filhotes; observa os anciões para ver como se comportam; observa o homem branco para ver o que quer. Observa sempre primeiro, com o coração e a mente quietos, e então aprenderás. Quanto tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos e pretos, é o contrário. Vocês aprendem enquanto falam. Dão prêmios às crianças que falam mais na escola. Em suas festas, todos tratam de falar. No trabalho estão sempre em reuniões nas quais todos interrompem todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes e chamam a isso “resolver um problema”. Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos. Precisam preencher o espaço com sons. Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer. Vocês gostam de discutir, nem sequer permitindo que o outro termine uma frase. Interrompem sempre. Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido.
Se começas a falar, eu não te vou interromper. Escutar-te-ei. Talvez deixe de te escutar se não gostar do que estás a dizer, mas não vou interromper-te. Quando terminares, tomarei a minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante. Pelo contrário, simplesmente ficarei calado e afastar-me-ei. Terás dito o que preciso saber. Não há mais nada a dizer. Mas isso não é suficiente para a maioria de vós
Deveriam pensar nas vossas palavras como se fossem sementes. Deveriam plantá-las, e permitir que crescessem em silêncio. Os nossos ancestrais ensinaram-nos que a terra está sempre a comunicar conosco, e que devemos ficar em silêncio para a escutar. Existem muitas vozes além das nossas, muitas vozes. Só vamos conseguir escutá-las… em silêncio.”
“Neither Wolf nor Dog. On Forgotten Roads with an Indian Elder” – Kent Nerburn