Descobrindo o Camboja

O Mundo em Fotopoesia: Camboja
Da Tailândia eu segui de ônibus para o Camboja. O país é bem interessante e peculiar. Logo após a fronteira eu fui tomar um café com leite e para minha surpresa eles me deram café com leite condensado. Insisti então que queria leite normal e eles não entederam, leite e leite condensado é a mesma coisa no Camboja. Outro fato interessante é que o país felizmente não tem moedas, apenas papel-moeda, tanto dólar quanto a moeda local, Riel. O único país do mundo que eu conheço que não trabalha com moedas. Parabéns!
A primeira cidade que eu visitei foi Siem Reap, que fica ao lado do complexo arqueólogico de Angkor. Fiquei no Downtown Hostel, um dos melhores da trip. Barato, com piscina e happy hour até de madrugada, nada melhor para aliviar o calor do quente verão asiático. A cidade é totalmente plana e eu fui de bike até Angkor. O sítio arqueológico é uma verdadeira cidade com centenas e centenas de templos ricamente esculpidos que foram a sede do Império Khmer do século IX até o XV. O mais famoso deles é Angkor Wat, maior templo religioso do mundo. Vale a pena um olhar mais cuidadoso, destaque para o Churning of the Ocean of Milk. Um dia inteiro é suficiente para conhecer os principais pontos, mas é possível adquirir um passe de três dias para conhecer melhor cada um deles. Destaque também vai pra Ta Prohm que foi “engolido” por árvores gigantescas que cresceram sobre os muros do templo. Local adorado pelos poetas e ótimo para meditação.
À noite fui a um restaurante no centro da cidade e comecei a conversar e beber com uma moça local. Apesar de em um primeiro momento eu não perceber, ela era uma prostituta. Fomos juntos então a um bar com música ao vivo. Quando a música parou, ela gritou: “Look my sexy boyfriend” apontando para mim e então continou dançando sem parar. Todos ficaram me olhando. Impagável. Depois dessa eu disse bye-bye pra ela e voltei pro hotel.
Dia seguinte fui de bike até uma vila próxima que possuía um templo desconhecido, mas bem interessante, Chau Srei Vibol. No total eu pedalei 60 kms e fiquei feliz de ver tanta gente pedalando por lá. Muitos deles em grupos. À noite, Apesar de não ser recomendado, combinei com Euridice, francesa (como sempre), de ir acampar em um reservatório próximo no dia seguinte. Fomos de bike e levamos a barraca na garupa. O local é praticamente uma praia e conta com uma faixa de areia perfeita para acampar. O dono do hostel ficou furioso que nós decidimos ir acampar, eles nos amedrontou dizendo que ainda haviam soldados da época de Pol Pot vagando pelas florestas do país e que poderiam ser bem perigosos. Nós fomos mesmo assim. Lá na “praia” diversas famílias moravam próximas e nos auxiliaram com mais informações. Esperamos o entardecer e armamos então a barraca em um local mais escondido. Mais à noite, já estávamos quase dormindo, quando uma lanterna vinda do meio do lago foi apontada para nossa barraca e nós imediatamente pensamos que era a políca, que o dono do hostel tinha mandado eles atrás da gente. Euridice ficou em pânico e queria sair correndo, Após um momento de reflexão, nós então pensamos que poderiam ser também bandidos que tinham vindo nos roubar haha. Nós começamos a se esconder atrás dos arbustos e ficamos uns 20 minutos nesta situação indo de um lado para o outro. Conforme a luz ia se aproximando, o óbvio veio à tona: eram apenas pescadores que usavam a lanterna para se localizar durante à noite. Tudo isso ocorreu por todo o medo que o dono do hostel colocou na gente. A mente humana é mesmo uma terra fértil, tanto para o medo quanto para o amor, cabe a cada um semear o que for melhor…
Eu segui então para a capital, Phnon Penh. Na cidade a primeira surpresa: todas as ruas eram numeradas, as paralelas eram pares e as perpendiculares, ímpares, tudo em ordem crescente. Incrível! Super inteligente! É impossível se perder por lá, mesmo sem mapa ou gps, sabendo o número da rua, basta seguir a sequência que você encontrará o seu destino. Cheguei facilmente até o hostel Encounters onde o fantástico Robert, gerente do local, me auxiliou com tudo. O ponto alto da cidade à noite é a avenida que segue o rio Tonlé Sap, um dos principais da cidade. Tive um jantar incrível com Francisco do Equador.
Dia seguinte foi a vez de visitar os Killing Fields, resgistro histórico dos crimes feitos em nome de uma das idéias mais estupidas já inventadas neste mundo chamada socialismo. Em nome dele, 2 milhões de cambojanos forma mortos. (Na Rússia foram 20 milhões, na China foram 50 milhões). É um momento triste, mas de reflexão. Nos convida a pensar que nenhuma idéia imposta à força, por mais incrível e lógica que seja, é suficientemente boa para melhorar o mundo. A forma mais coerente e efetiva para tal mudança é mudar a si mesmo, a sua mentalidade, a sua forma de pensar o mundo e logo isto será a semente da mudança e logo você verá o mundo com outros olhos. Tudo o mais irá gerar destruição e morte. Nos killing Fields, os soldados batiam as cabeças das crianças e recém-nascidos contra as árvores Chankiri  e ainda hoje é possível ver as marcas deste ato. Consegue imaginar um ser humano fazendo isso?
Após Phnon Penh, fui então para a incrível ilha de Koh Rong. Cheguei lá de barco ainda com o Francisco do Equador. Ao pisar na ilha todos os viajantes são levados a um restaurante onde instruções são dadas: informações sobre perigos da ilha, cobras venenosas, eletricidade, água potável etc. A ilha conta com plâncton fluorescente e à noite, quando a luz é cortada, é possível ver o mar brilhando conforme os banhistas se movimentam, espetacular! Fiquei 20 dias pela ilha. Nadei apenas com snorkel e nadadeiras até ilhas próximas, eu e Chico fomos de barco também a outros lugares mais distantes, fiz diversas trilhas enfrentando cobras perigosas. Aquele programa francês Survival foi gravado por lá, eu até visitei as instalações do  local.
O lugar é paradisíaco e um dos processos mais difíceis da minha vida ocorreu por lá: Vipasana. Ele consistiu em 10 dias sem comunicação com o mundo exterior, sem falar, sem olhar nos olhos e comendo apenas arroz sem sal com vegetais, ovo e água de coco e durante as refeiões, apenas meditação. Do outro lado da ilha, quase não havia turistas e lá encontrei uma cabana onde poderia realizar o tal Vipasana, senti que tinha que fazê-lo por ali. Conversei com a cuidadora do lugar e ela topou em cozinhar para mim por esses 10 dias. Só que ela não falava inglês muito bem e no terceiro dia eu queria avisá-la para parar de me dar ovo frito, pois eu queria ovo cozido. Escrevi então no papel e ela precisou levar o rascunho até um hotel próximo e o gerente do local então traduziu para ela. O que mais eu senti falta não foi o falar, foi o me movimentar, mexer o meu corpo. Ficar em silêncio é fácil, difícil é ficar parado, sem se mexer o dia todo. Meu corpo queria fugir, andar por aí. Geralmente o Vipasana é feito em monastérios, em grupos, com o auxílio de monges. Eu preferi fazer o meu próprio. Valeu muito à pena, pois foi o momento de parar e refletir sobre tudo aquilo que eu tinha vivenciado até então. Foi um verdadeiro privilégio realizar esta viagem de volta ao mundo e é algo que eu vou levar para sempre. Não há dinheiro nesse mundo que pague essa oportunidade de conhecer o mundo como ele é, sem frescura, sem hotel cinco estrelas, sem táxi com ar-condicionado. Faria tudo novamente. Após toda essa intensa vivência que eu experienciei, eu segui então para o Vietnã.
Dito isso, desejo a todos que estão me lendo que possam enfrentar seus monstros cultivados interiormente, que possam enfrentá-los como homens e mulheres e não como covardes e submissos. Não acreditem na tevê quando dizem que o mundo é violento e perigoso, não acreditem em seus pais quando dizem que o mundo é perigoso, nem sequer acreditem quando dizem para que você não fale com estranhos, eles estão apenas reproduzindo o que aprenderam, não pararam para refletir sobre isso, mas você, você pode fazer isso, você pode falar sim com estranhos, o mundo é feito de estranhos, você pode sim conhecer o mundo e se aventurar por ele, não duvide disso, não desperdice sua vida em frente da tevê, se alguém disser que existe outra vida, peça que provem isso com assinatura e registro em cartório (até hoje não me provaram). Não há nada mais precioso do que a vida e se hoje eu morresse, eu morreria tranquilamente.
Lucas Ramalho
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Camboja
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Siem Reap

 

Muitas bikes por lá
Muitas bikes por lá
Chau Srei Vibol
Chau Srei Vibol
Chau Srei Vibol
Chau Srei Vibol
Crianças lindas
Crianças lindas
Minhas Duas Noivas
Minhas Duas Noivas
Churning Milk Way
Churning Milk Way
Angkor Wat
Angkor Wat
Angkor
Angkor
Heaven's Door
Heaven’s Door
Ta Phron
Ta Phron
Ta Phron
Ta Phron
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Militar
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Ta Phrom
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Reservatório
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Praia no Camboja
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Euridice
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Camboja

 

Passarinho
Passarinho
Luta
Luta
Cobras e Rãs
Cobras e Rãs
Motos, muitas motos
Motos, muitas motos
Chankiri Tree, onde os estúpidos animais humanos batiam as cabeças das criancas!
Chankiri Tree, onde os estúpidos animais humanos batiam as cabeças das criancas!
Prisão para quem?
Prisão para quem?
Francisco indo para Koh Rong
Francisco indo para Koh Rong
Maior coco que eu já vi
Maior coco que eu já vi
Boi d'água
Boi d’água
Koh Rong
Koh Rong
Cobra
Cobra
Café com gelo
Café com gelo
Dança dos peixes
Dança dos peixes
Local do Survival
Local do Survival
Ponte em Koh Rong
Ponte em Koh Rong
Cachu em Koh Rong
Cachu em Koh Rong
Space Cakes
Space Cakes
Koh Rong
Koh Rong
Koh Rong
Koh Rong
O barco e a ilha
  Um barco cruzava a paisagem
Como uma miragem eu o via
Com aqueles olhos que já viram
Muitos barcos passarem eu o via
 
E por um instante eu sonhava
Que ele viesse me buscar desta ilha
Que viesse me buscar de mim mesmo
Homem ilhado e de muitas tempestades
 
Náufrago de barba amarga
E olhos cor de chá de Jasmim
Eu acenava para o barqueiro
E ele apenas acenava de volta ao longe
 
Eu já não me desespero
Aprendi com o mar que o mar traz tudo de volta
Eu caminho pela praia por entre sorrisos de crianças
E lágrimas de adultos, daquele que eu era
 
Hoje voltei a ser criança
Desnudo deixei de cultivar esperanças
Mas tenho um jardim com algumas rosas
E até mesmo um grande baobá
 
Mas o barco… Por que nunca fiz um barco?
É porque esta ilha onde eu vivo passam todos os barcos
Como um farol eles a tem por referência
 
Estivesse eu fora da ilha ela não existiria
E os barqueiros também não a reconheceriam
Eu não teria meu jardim e nem
Os sorrisos de criança
 
 Eu gosto da ilha só não gosto de estar ilhado
E um barco não seria suficiente para resgatar o que eu sou
Mas por ter aprendido que o mar traz tudo de volta
Eu sei que os barqueiros sempre voltarão enquanto eu for ilha
 
E porque aprendi que apesar de ser ilha eu também sou o mar
Então passei a ver todos os barcos
E todas as ilhas repousando sobre mim
A partir de então eu deixei de estar ilhado.
Lucas Ramalho
Koh Rong  
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