E Foi Assim na Bulgária…

O Mundo em Fotopoesia: Bulgária

A Bulgária é um país bem divertido e que guarda muitas emoções. Era final de outubro quando eu cheguei à Sófia, capital do país, vindo da Macedônia. Uma brasileira comentou comigo sobre um estadunidense que morava por lá e que talvez pudesse me hospedar. Chegando na rodoviária, fui a pé até seu apartamento tentando decifrar as placas das ruas. Após algumas informações, finalmente cheguei ao lugar. Ele não estava, mas no corredor, encontrei Emily que se preparava para sair. Amiga dele, nos abraçamos e ela me levou até o apê. Como ia fazer um trekking pelos arredores, me deixou gentilmente por lá e pediu que eu esperasse até a chegada de Jackson. Tomei um banho e dei uma volta pela cidade. Encontrei uma incrível loja que vendia tudo orgânico, inclusive um leite de amêndoas delicioso. À noite, encontrei Jackson e saímos juntos para um encontro de viajantes em uma casa próxima.
Dia seguinte fui conhecer um pouco da cidade. Com mais de 2 mil anos de história, só recentemente se tornou a capital. A população de 1 milhão e meio de habitantes garante um intenso fluxo de pessoas pelas ruas, bares, universidades e lojas da cidade. E também é bem amigável para quem gosta de conhecer os locais a pé, mas bondes e trens garantem conexões rápidas por toda a cidade. Um dos destaques é a igreja de Santa Sófia foi construída no século VI e deu nome a cidade. O alfabeto do país é o círilico, mesmo utilizado na Rússia e indecifrável para um leigo. Então é sempre bom ter um tradutor e GPS nas mãos para não se perder por lá. O pessoal de mais idade joga bastante xadrez pelas praças da cidade e eu então resolvi jogar algumas partidas contra um deles bem experiente. Só que lá, quem perde paga um euro. Em 30 minutos eu perdi quase dez reais e aí então desencanei de jogar hehe. 
Jackson nasceu nos Estados Unidos e já tinha viajado por muitos países juntamente com seu pai. Poliglota e vegetariano, conhecia sete idiomas e estava estudando latim na cidade. Conheceu Emily no Boom festival e ela veio então para morar com ele por alguns meses. Curiosamente eu estava neste evento em Portugal, mas não havia encontrado os dois (havia mais 20 mil pessoas no evento). Ele estava atuando juntamente com sua mãe no desenvolvimento de um padrão que permitia identificar traços da personalidade através das características (linhas, formas, disposições) dos rostos das pessoas. O projeto chama Living Harmony e era muito divertido caminhar com ele pela cidade. Ele ficava o tempo inteiro classificando os rostos das pessoas. Segundo esta teoria, existem quatro tipos de pessoas de acordo com os traços do rosto: extrovertidas, animadas, sutis e ricas. Cada uma delas representa um tipo de personalidade e é conectada com um dos quatro eletementos da natureza. É um correlato da Big Five Theory e OCEAN. Teoria a parte, nós três nos demos muito bem e tivemos um grande tempo juntos seja saindo à noite para as festas ou cozinhando no apê. Ele era bem receptivo e chegou a hospedar em uma noite mais de oito viajantes, eu dormi tranquilamente no chão para que os outros pudessem descansar um pouco.
De Sófia, segui para uma breve viagem até Plovdiv. É um lugar à parte. Pequeno, o símbolo da cidade é um menino louco. E não à toa, as pessoas de lá são meio alteradas. Chegando na estação de trem, sentei um pouco para descansar ao lado de um orelhão e um rapaz então começou a destruir o orelhão. Ao mesmo tempo uma mulher passou e peidou bem perto de mim. Eu incomodado rapidamente saí da estação e comecei a caminhar pela cidade. Achei o hostel, mas a funcionária não ficava à noite por lá. Um dos hóspedes disse para eu pular o portão e dormir de boa. Foi o que eu fiz. Como ninguém que trabalhava por lá ficava à noite, a gente pensou em colocar alguns flyers pela cidade combinando uma festa para o dia seguinte, mas a idéia não vingou. Eliav era um estadunidense de 18 anos que também viajava por lá. Fomos a um bar local e absolutamente ninguém falava inglês, exceto um búlgaro que constantemente chamava Eliav de bastardo. Aparentemente ele só sabia esta palavra em inglês e ficava o tempo inteiro gritando “Bastard” pra ele. Como o clima não estava muito bom, decidimos procurar um lugar com música pela cidade. Depois de andarmos uma hora a esmo, em uma esquina, um rapaz enorme com quase dois metros parou em frente de nós e perguntou em um inglês bem fraquinho para onde estávamos indo. Apontamos que o lugar que procurávamos era em frente e ele então disse em alto e bom som que nós estávamos indo para o lugar errado. Em seguida disse que nós deveríamos segui-lo. Não ousamos discordar. Ele nos levou a um bar muito bom com música ao vivo, mas, pra variar, cheio de gente completamente louca. Um deles era o próprio búlgaro que xingava Eliav de bastardo. Um outro cara nos garantiu que tinha um plano que iria revolucionar o mundo. Pra completar, um último queria que fossemos a uma boate próxima. Então uma cena muita engraçada ocorreu, Eliav bebeu bastante e terminou por vomitar na calçada do bar e o búlgaro então xingando ele de bastardo mandava ele levantar do chão (foto abaixo). Como ele não melhorou, pegamos um táxi de volta para o hostel, era muita loucura de uma vez só.
Voltei pra Sófia e Eliav também. Fomos para o apê de Jackson e combinamos uma trilha de três dias pra manhã seguinte. Na verdade eu não queria ir, pois a previsão do tempo era de chuva com relâmpagos, mas como Eliav insistiu muito, eu aceitei. É a famosa trilha dos sete lagos que termina no Monastério Rila. Fomos de carona até lá e começamos com o tempo já meio instável. Conseguimos o mapa da trilha na primeira parada dentro de um café. Era meio-dia, começava a chover lá fora e nem tínhamos chegado ao primeiro lago. Tínhamos seis horas de trilha pela frente até o abrigo. Não havia mais ninguém na trilha e seguíamos então montanha acima. Conforme passávamos pelo primeiros lagos, íamos entrando mais e mais dentro de uma nuvem cinzenta e úmida que nos tolhia toda a visão. A temperatura continuava  a cair e a chuva a apertar. Nos atrasamos tirando fotos dos lagos e o tempo então corria. Quando deu exatamente seis da tarde, estávamos no topo, mas ainda tínhamos uma hora de trilha montanha abaixo até o abrigo. De repente escureceu e uma tempestade com ventos fortíssimos nos atingiu em cheio. Eliav não estava preparado para a chuva e começou a ficar bem molhado e com bastante frio. Pra completar, não dava pra pegar a lanterna no meio daquela tempestade. Por sorte, os marcos da trilha eram postes brancos de dois metros que ajudavam quem passava por ali quando nevava. Mesmo com tudo escuro, conseguíamos enxergar os marcos e corríamos então para evitar a hipotermia. Porém, na metade do caminho perdemos a trilha. Voltamos para tentar recuperar os marcos. Eliav estava desesperado e queria montar a barraca ali mesmo no meio do nada. Eu disse que iríamos morrer se ficássemos ali. Pra terminar, escutamos uivos de lobo por perto. Eu me sentia em um Thriller de Hollywood. Mas graças à piedade do bom Deus das Montanhas, Óreas, recuperamos a trilha. A partir daí, literalmente, voamos montanha abaixo. 20 minutos depois avistamos o que parecia um abrigo. E por sorte era. Estava tudo apagado. Eu me joguei contra a porta e ela então abriu. Um gato preto passou correndo e nos assustou. Era muita emoção pra uma noite só. Fomos lentamente andando pelo abrigo com a minha lanterna. Eliav tremia de frio e estava claramente com sinais de hipotermia. Precisávamos acender o fogo. Chegamos à cozinha e encontramos um depósito com todo o tipo de comida que podíamos imaginar: ovos, chocolate, carnes, sopas, chás. Era como se tivéssemos ganhado na loto. Mas ainda tínhamos que saber se não havia mais ninguém por lá. Subimos para o primeiro andar e de porta em porta fomos checando se havia alguém. A última estava trancada e então batemos para confirmar. Uma voz tímida respondeu. Era o morador do abrigo. Eu rapidamente desci pra tentar arrumar a bagunça da cozinha enquanto Eliav esperava por ele. Logo ele acendeu a luz e a lareira e deu várias cobertas pra Eliav. Minha bota estava ensopada e eu coloquei-a perto do fogo. Ele nos ofereceu sopa e então finalmente relaxamos. Combinamos que iríamos passar o dia seguinte por lá se o tempo não melhorasse. E não melhorou. Choveu o dia inteiro e no comecinho da noite começaram a cair os primeiros flocos de neve. No dia seguinte, para minha grande surpresa, quando abri a janela, estava tudo completamente branco, era o mundo do branco. Era a primeira vez na minha vida que eu via neve e eu corri pra fora pra brincar com ela. Fiz bolinhas de neve e atirei todas em Eliav. Após a euforia, tínhamos que seguir viagem e o desafio ainda não estava terminado. Era o segundo tempo. Os marcos nos guiavam pelo caminho e a neve já se acumulava na altura da canela e, em alguns pontos, do joelho. A parte mais difícil foi o cruzamento de 15 minutos pelo topo da montanha. Ainda estava nevando e ventava como turbina de avião. Tínhamos que quase rastejar para não sermos jogados montanha abaixo. Felizmente conseguimos cruzar e a parte final era só descer até o monastério. Mesmo com os bastões de caminhada, alguns escorregões eram inevitáveis. Vimos algumas pegadas recentes de ursos pelo caminho e Eliav estava meio assustado. Mas no final tudo deu certo e chegamos ao Rila no comecinho da tarde. Ufa!!! Agradeci mais uma vez a Óreas pelo final feliz na montanha e a Diana, deusa da caça, por nos proteger dos ursos e lobos.
Jantamos em alto estilo com bastante vinho e peixe e voltamos mais uma vez para o apê de Jackson e Emily. Eles nos receberam de coração aberto novamente. Era nossa última noite juntos. Dia seguinte Eliav seguia para Romênia, eu seguia para Istambul e os dois iriam ficar ali em Sófia, Jackson por quatro anos e Emily, por alguns meses. Nos despedimos e eu agradeci aos dois por tudo e ainda me despedi do bastard Eliav hehe. E foi assim na Bulgária, caro leitor!

Lucas Ramalho

Monastério Rila
Monastério Rila
Neve na trilha dos sete lagos
Neve na trilha dos sete lagos
Neve na trilha dos sete lagos
Neve na trilha dos sete lagos
Abrigo na Trilha dos Sete Lagos
Abrigo na Trilha dos Sete Lagos
Shelter
Shelter
Lago
Lago

Me and the Lake

Eliav
Eliav
Bus
Bus to seven lakes trail
Shy japonese
Chinês tímido
Bitch? Então tá!
Bitch? Então tá!
descanso na praça
descanso na praça
??????????
Dona de Casa posando para a foto
Veliko Tarnovo
Veliko Tarnovo
Eliav passando mal
Eliav passando mal
Levante! Bastardo!
Levante! Bastardo!
??????????
Xadrez na praça
Plovdiv
Plovdiv
O louco, Representante de Plovdiv
Representante de Plovdiv
Entendeu?
Entendeu?
Eu com as meninas em Sófia
Sófia e as meninas
Primeira vez na neve
Primeira vez na neve
Drinking a beer with the bastard!
Drinking a beer with the bastard!
Plovdiv
Plovdiv
T-Rex
T-Rex
Plovdiv
Plovdiv
Jackson, Emily and me!
Jackson, Emily and me!
Catedral de Alexandre Nevsky
Catedral de Alexandre Nevsky
Jackson, Emily and Me
Jackson, Emily and Me
Veliko Tarnovo
Veliko Tarnovo
Hey!
Hey!
Sófia
Sófia
Former Bulgarian Communist Party Headquarters
Former Bulgarian Communist Party Headquarters
Igreja de Boyana
Igreja de Boyana
Sófia
Sófia
Estátua de Santa Sófia
Estátua de Santa Sófia
Monumento ao Zé Bonitinho em Veliko Tarnovo
Monumento ao Zé Bonitinho em Veliko Tarnovo

 

Atrás da Porta

Era um palhaço triste
Que vivia no centro da cidade
Trabalhando todo dia
Sem ter necessidade
 
Era triste sem saber.
Bem por que não sabia.
É que ele estava a se esconder
E então não descobria.
 
Mas toda a gente ia passando.
O tempo então corria.
Ele já envelhecendo.
A máscara não cabia.
 
Ele queria sem querer.
Abria a porta sem sair.
Tinha medo de não ser.
Tinha medo de sorrir.
 
Era um palhaço infeliz
Que vivia no centro da cidade
De roupas largas e nariz
Sem ter necessidade
 
Tudo nele era triste
Da peruca até o sapato
Tudo nele era falso
Nunca foi um bom palhaço
 
Ele queria sem querer
Mas agora ele sorria
Desistiu de se esconder:
A máscara caía
 
E no centro da cidade
Todo mundo perguntava
Pelo palhaço de outrora
Que tanto os alegrava
 
Não era mais palhaço
Nasceu pra ser feliz
Atrás da porta apenas
A peruca e o nariz.

Lucas Ramalho

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