Índia Extraordinária – Parte I

O Mundo em Fotopoesia: Índia

Falar da Índia não é uma tarefa fácil, mesmo um livro não seria suficiente para tal empreitada e somente a vivência deste incrível país poderia vos dar um vislumbre do que ela é. Cheguei a Índia em fevereiro de 2013, em Mumbai vindo de Nairobi. Um casal amigo, Arjun e Lavynia, ofereceu seu apartamento para que eu pudesse me ambientar com a cidade. Trens auxiliaram na aventura pela cidade. Portas abertas, pedintes e o famoso pulo com o trem chegando na estação são suas características, nada muito difrente do que havia em São Paulo há uns 10 anos atrás. No segundo dia, caminhando pela cidade, ouvi uma música e resolvi seguir o som. Entrei no corredor de uma casa e lá no fundo um casal no chão realizava uma pequena cerimônia. Quando me viu, um outro rapaz se aproximou e pediu que colocasse meu nome em um papel dourado. Era o convite para um casamento que aconteceria no dia seguinte. Eu prontamente aceitei o convite. Na manhã seguinte apareci e em um ônibus com mais 20 pessoas fomos ao local da cerimônia. Foi-me servido um ótimo café da manhã e algumas pessoas chegaram para perguntar se eu era o rapaz que tinha vindo do Brasil para o casamento, eu respondi que sim hehe. A cerimônia durou horas e horas, eu acompanhei a primeira parte antes do almoço, em uma certa parte jogaram arroz nos noivos, em outra fizeram o ritual com a chama de uma vela. O almoço incluía buffet indiano e chinês, ambos vegetarianos. Eu desfrutei de tudo que poderia. Mais tarde conheci Shreeneth e fui a sua casa para trocar minhas roupas. Ele me emprestou um terno azul e uma calça social, eu comprei sapatos na rua e então retornamos à cerimônia. Já no salão, muitas fotos com os convidados, inclusive com os noivos e obviamente um jantar de gala que novamente incluía os dois buffets. Encerrada a cerimônia, disse a Shreeneth que queria ir a um bar, mas ele me levou para um lugar mais exótico. Uma porta de madeira discreta era a entrada. Sentamos em um sofá no meio do salão. Havia um palco em frente e músicas sensuais eram tocadas. Pedi uma cerveja e logo diversas garotas asiáticas começaram a desfilar para a gente: era um prostíbulo. Como estrangeiro, eu era um prato cheio por lá e não podia sequer sorrir para qualquer uma que isso já era um sinal de positivo. Bebemos a cerveja e eu incomodado disse a Shree para partimos. Tudo isso aconteceu já no meu segundo dia na Índia.
Eu continuei usando o terno azul pela cidade e era engraçado como muitas pessoas me seguiam e perguntavam o que eu fazia por lá e quais eram meus planos para a Índia hehe. A todo instante alguém vinha papear comigo. Conheci os principais pontos de Mumbai, o clássico Portão da Índia, feiras, templos, igrejas, bares, baladas. Comi em ótimos restaurantes acompanhado de Arjun e Lav e após uma semana decidi que era hora de partir. Segui então para Goa, destino mais famoso do país. Escrevendo isso hoje, acabei de ler que os viajantes poderão tirar visto de 30 dias no próprio aeroporto de Goa, inclusive, os brasileiros (naquela época, somente visto com antecedência). Decidi ir por terra. O transporte é um caso à parte no país. Os ônibus são equipados com beliches e todos viajam deitados. Comprei uma passagem simples e a trip duraria 12 horas. Na hora do embarque percebi que a largura das camas era muito boa e pensei comigo que dormiria confortavelmente a viagem toda. Ledo engano, nunca estamos confortáveis na Índia. Após uma hora, um rapaz que estava no fundo do ônibus se aproximou de mim e disse que ele logo viria descansar. Eu perguntei aonde e ele apontou para a letra B atrás da cama. Meu tíquete era a letra A e só então eu percebi que aquelas camas largas e confortáveis são para duas pessoas hehe. Fiquei bravo. Perguntei ao assistente do motorista porque ele não havia me dito nada e ele garantiu que tinha me dito. Não havia muito o que fazer, eu me enfiei no saco de dormir e deitei de ponta-cabeça eseprando pela chegada do rapaz. Felizmente ele era simpático e a noite transcorreu sem maiores problemas, exceto pelas curvas da estrada.
Cheguei pela manhã e após tomar um Masala Chai, encontrei uma pousada perto da praia. Conheci Jammie, da Nova Zelândia, Ros, da Inglaterra e Anna da Escócia, melhor jeito de treinar o inglês, impossível. Nos tornamos uma equipe de motociclistas, cada um de nós alugou uma scooter. Eu consegui uma por 1 dólar por dia, acreditem se quiser. De lá, visitamos diversos pontos de Goa, Vagator, Arambol e a capital com tradição portuguesa. Nesta última, eu comi até uma feijoada, um pouco diferente e mais apimentada, mas deu pra enganar. Em uma das tardes, fomos a uma clássica rave na praia e à noite visitamos diversas festas. Todos os estrangeiros em Goa alugam scooters, sendo que acidentes são bem comuns. Algo divertido ocorreu em uma das noites: terminada a festa, eu com Ros na Garupa voltei para o hotel. A estrada é bem escura e com bastante curvas. Eu, sem lembrar muito do caminho aquela hora da noite, peguei uma entrada à direita e após três minutos fui parar em uma rua sem saída com um portão grande em frente, quando olhamos pra trás, diversas outras scooters estavam nos seguindo e também tiveram que dar meia volta. Nós rimos que nem loucos. Há também um perigo adicional de se pilotar pela Índia: as vacas. De dia elas ficam na praia tomando sol e à noite, elas dormem no meio da rua e para quem está pilotando isto não é nada bom. Diversas vezes, tive que frear em cima para não bater em uma vaca dormindo no meio da rua estreita, parece até mentira, mas quem manda por lá são elas. E nada de buzinar, é preciso esperar que elas decidam se levantar e sair do caminho. Falarei mais delas na segunda parte. Fiquei uma semana em Goa e me diverti adoidado, para quem gosta de festa, aquele é o lugar, mas eu também queria ver algo mais “indiano” e segui viagem.
Novamente de ônibus fui para Hampi, no centro-sul da Índia, à beira do Rio Thungabhadra. Capital de um atigo império, possui centenas de templos antigos, esculturas, pinturas e sistema de irrigação, que compõem um cenário fantástico. Conheci Charlotte, francesa que viajava por lá e decidimos ficar no mesmo quarto. Passeamos de bike pela região e até fizemos um trekking até um monte próximo para ver o por do sol. Um ponto de destaque de lá são os cafés: não há cadeiras, todos sentam nos chãos e descalços assistem a filmes temáticos. Nada melhor que um ótimo almoço depois de uma pedalada e uma soneca no restaurante para recarregar as energias. Tive a impressão que o tempo por lá passou em um ritmo mais vagaroso e foi muito bom para curar a ressaca da frenética Goa. Segui ainda com Charlotte para Mysore, onde um palácio magnífico nos esperava para ser visitado. Ricamente decorado, o local impressiona tanto de dia quanto de noite, com shows de luzes na parte externa dele. Com mais dois franceses, seguimos então para um bar local. Quebrando o tabu machista do país, as garotas entraram conosco, mas não foi fácil. Ficamos em uma espécie de cabine só para a gente, mas não estávamos sós. Um ratão enorme quase do tamanho de um gato tentou entrar no recinto para desespero de Charlotte e da outra francesa que nos acompanhava. Em seguida um bêbado descontrolado também invadiu a cabine e num tom ameaçador falou alguma coisa em Hindi para nós. Depois disso, decidimos que era hora de partir, era Resident Evil demais para nós. Como estava muito calor na época, fomos para as montanhas do sul respirar ar fresco. Ooty foi nosso próximo destino, a 2400 metros de altitude, equivalente à nossa Campos do Jordão aqui de São Paulo. Com um ritmo mais tranquilo e com uma temperatura média de 14ºC, serve como um refresco para o quente verão indiano. Charlotte e eu ficamos em uma incrível pensão colonial e fizemos um trekking pelas montanhas da região. Com um comércio voltado para o turismo, mas também para agricultura, as colinas impressionam pelas plantações de chá, de legumes como batata, couve-flor e de frutas como pêssegos, ameixas e morangos. Dessa vez quem nos atormentou foram os macacos, extremamente agressivos, eles podem te atacar facilmente caso vejam que você está com uma banana que a princípio é deles. Eles me roubaram um doce que eu pus ao meu lado enquanto estava sentado em um banco, mas por sorte, pouparam o meu celular. Após dois dias, me despedi de Charlotte que estava indo ao leste indiano para um trabalho voluntário e eu segui ainda mais para sul: para o rico estado de Kerala.
Com o maior PIB da Índia, o pujante estado de Kerala apresenta diversas atrações. Tratamentos Ayurvédicos à beira-mar, surf nas ondas de Varkala, Yoga, ótima gastronomia, além de alimentação orgânica e vegetariana por toda parte. No hostel Shiva Garden, conheci Mike, da alemanha e Erick da Suécia. Formamos uma equipe de surf e nos arriscamos pelas ondas da praia em frente. Os hostels ficam todos no topo de uma colina, enquanto que para acessar a praia é preciso descer uma grande escadaria. O cenário é fantástico. Tomamos muito caldo no mar, mas deu pra se divertir. À noite, violão, fogueira, chai e muita diversão. Fiquei quatro incríveis dias por lá e até pratiquei um pouco de Yoga ao amanhecer com uma portuguesa, dona do Shiva Garden. Fizemos a saudação ao sol, Surya Namaskar. Eu me despedi de Mike e Erick que acabaram comprando um Rickshaw (triciclo automotor usado como táxi na Índia) e decidiram seguir para Goa. Eu fiz minha última parada no sul da Índia em Kollam, para um passeio pelos canais do lago Ashtamudi, um dos mais preservados da Índia. A região inteira é conectada por canais e tudo é feito de barco por lá: ida à escola, igreja, mercados flutuantes, visitas a pontos turísticos, vale a pena conhecer a região. Por fim, segui então para Madurai para uma breve visita ao espetacular templo Meenakshi Amman e de lá peguei meu avião para Delhi começando uma outra jornada, mais turbulenta, mais quente e ainda mais insana pela Índia.

Lucas Ramalho

ônibus para o casamento!
ônibus para o casamento!
Convidados!
Convidados!
Wedding
Wedding
Eu com os parentes da noiva.
Eu com os parentes da noiva.
A noiva e o noivo
A noiva e o noivo
Cerimônia. Wedding.
Cerimônia. Wedding.

Shreenath e eu de terno azul
Shreeneth e eu de terno azul
Foto com os Noivos
Foto com os Noivos
Foto com a família
Foto com a família
Portão da Índia, Mumbai. India Gate.
Portão da Índia, Mumbai. India Gate.
Great Vivekananda
Great Vivekananda
White Mosque in Mumbai
White Mosque in Mumbai
Mumbai
Mumbai
Buzine, buzine, por favor!
Buzine, buzine, por favor!
Feliz até saber que a cama era pra dois!
Feliz até saber que a cama era pra dois!
Vacas curtindo Goa. Cows in goa.
Vacas curtindo Goa. Cows in goa.
Menu em Goa
Menu em Goa
Auto-explicativo
Auto-explicativo
Goa Rave
Goa Rave
Indian wandering!
Indian wandering!
The Boss
The Boss
Ros, jamie and German Girl!
Ros, jamie and German Girl!
Small orange temple in Goa
Small orange temple in Goa
Quanta Pipoca
Quanta Pipoca
hampi
Hampi
Charlotte!
Charlotte!
Hampi View
Hampi View
Super Hampi Sunset
Super Hampi Sunset
Indian family in Hampi
Indian family in Hampi
Great Frog God
Great Frog God
Hampi Temple
Hampi Temple

e20130308_124718

Pirâmide invertida
Pirâmide invertida
Elephant Trip in Mysore
Elephant Trip in Mysore
Mysore Palace
Mysore Palace
Ooty Festival
Ooty Krishna Festival
Ooty
Ooty
Me and my monkey ""Friend"
Me and my monkey “”Friend”
Indian Bus
Indian Bus
Hampi Lake
Hampi Lake
Tree forest
Tree forest
Meditation water temple
Meditation water temple
Sacred Cow
Sacred Cow
Trivandrum Temple
Trivandrum Temple
Trivandrum
Trivandrum
Varkala Beach
Varkala Beach
Ashes Ceremony in varkala.
Ashes Ceremony in varkala.
Surf Team
Surf Team
Kollam
Kollam
Boat in Kollam
Boat in Kollam
School in Kollam
School in Kollam

 

 

 

 

Madurai temple
Madurai temple

Querer

No muito querer ha muita dor
Por não entender, não se vê
Seja a vida bonança ou martírio
Seja você estrela ou mendigo
No muito buscar, há cansaço
 
Quem corre não caminha
Leve como quem flui
Quem espera se desespera
Com o que viu e com o que foi
 
Por isso quem entende e quem vê
É como um rei governando o mundo
Com uma coroa em espiral sobre a cabeça
 
Ele é mestre e aprendiz
Escravo e senhor
Pássaro e canção
 
O homem sagrado ouve a música
Onde só existe barulho
Vê a luz onde reina a escuridão
Tem a riqueza na casa miserável
E possui a clareza dentro de um dilúvio
 
O rei nunca se cansa
Pois sabe que o cansaço vem da busca
O rei nunca busca
Pois sabe que já tem o que busca
 
E por viver esta realidade é rei
Ele já tem tudo o que precisa.
No muito buscar, há muita dor!

 Lucas Ramalho

Goa

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