O Fim do Mundo no Egito

O Mundo em Fotopoesia: Jordânia e Egito

Em 2012, as profecias diziam que o fim do mundo estava próximo, que no dia 21 de dezembro, o mundo acabaria. No Brasil, grupos esotéricos se isolaram em trabalhos de campo, na França, viajantes tentavam se abrigar no Pic de Bugarach, nos Pirineus, apesar do próprio governo ter fechado o acesso à montanha. Segundo os boatos, esta montanha seria uma garagem alienígena na qual os extraterrestres estariam esperando pelo último dia e partiriam levando com eles os humanos sortudos que por ventura estivessem por lá. Na Rússia, algumas pessoas começaram a fazer estoques de velas, fósforos, alimentos e obviamente vodka. Na Europa, milionários construíram abrigos subterrâneos com provisões para muitos meses caso ocorresse o armageddon.
No começo de dezembro, eu fui de Israel à Jordânia, para visitar a incrível Petra e o deserto de Wadi Rum. Petra tem uma história milenar, é uma cidade esculpida na rocha que resistiu à passagem dos séculos. Templos, teatros, tumbas, casas, tudo se encontra preservado graças a uma incrível combinação geográfica e cultural. Históricamente, os povos Nabateus que habitavam o local governaram por séculos e controlaram o comercio local até a chegada dos romanos no século I EC (10106 EH). Apos a tomada de poder, a cidade entrou em declínio. Petra era abastecida por uma complexa rede de diques, represas e cisternas que garantiam água de forma perene, mesmo estando no deserto. A entrada atual da cidade se dá através de um longo e estreito corredor de quase dois quilômetros de extensão fechado pelos dois lados por paredes rochosas de centenas de metros. Estas formações geológicas garantiram uma vantagem militar enorme na época e contribuíram para a preservação do local. Petra é considerada uma das sete maravilhas do mundo moderno, a terceira que eu visitei, depois do Coliseu e de Machu Picchu. O preço é bem salgado, custa USD 55,00, mas vale muito a pena. É possível comprar o passe de dois ou três dias, caso queira visitá-la com mais calma. Em oito horas, percorri todos os pontos principais da cidade. Os destaques vão para o Tesouro (Al Khazneh) e para o Monastério, maior monumento de Petra.
Após Petra, segui então para o deserto de Wadi Rum que também tem aspectos bem peculiares. Possui montanhas e até mesmo água em alguns pontos. Fiz uma expedição solo apenas com um mapa, barraca, comida e água na mochila. Jipes cruzavam o ambiente inóspito de vez em quando. Aqui e lá era possível ver algum acampamento que abrigava os turistas. Uma montanha de areia para escorregar, um refresco na sombra e o silêncio do deserto garantiam o cenário ideal. Após algumas horas de caminhada, montei a barraca e descansei sob o mar de estrelas. O deserto me lembra de casa, não desta casa daqui, mas de uma outra. Talvez seja o silêncio absoluto que nos ponha em contato com a origem de nós mesmos. A noite nos refrescava do calor do dia e garantia uma temperatura ideal para se dormir sobre a areia. Cozinhei alguns vegetais em uma fogueira que fiz e fui dormir. Passei quatro noites neste ritmo. Em uma delas, dormi no acampamento de uma família de beduínos e ouvi um pouco das angústias de uma moça jovem sobre o futuro incerto. E dei risadas com o pai dela que me contava histórias do deserto. Um lugar mágico que merece uma boa exploração.
De lá então segui para o Egito. O ferry saíria às 23h, à 0h ou à 1h. Não se tinha uma idéia exata. Cheguei cedo para garantir meu lugar. Nenhum viajante à vista, apenas locais com centenas de quilos de muambas tentando ganhar a vida do outro lado do Mar Vermelho. A travessia durou uma hora, mas a viagem durou sete. Chegando no Egito não se podia desembarcar. Como que religiosamente, foi aguardado o nascer do sol. Às 5h, uma gritaria no convés me deu a impressão do armageddon, mas ainda era 2 de dezembro e o mundo só acabaria dia 21. Todos tentavam pegar as malas e muambas ao mesmo tempo. Por sorte achei a minha e me esquivando dos outros segui em direção à saída. Mais um pouco de espera e fianalmente pus os pés no Egito.
Segui para a famosa Dahab, berço egípcio do mergulho. A temperatura e as condições de visibilidade do mar vermelho garantem uma experiência sem igual. De fato eu tinha medo de mergulhar. Tentara uma vez na Bahia sem sucesso. Então decidi fazer o curso de mergulho para perder o medo. O curso dura cinco dias combinando o iniciante e o avançado. A parte teórica consiste na leitura de livros e vídeos explicativos. A parte prática começa à beira-mar.  E logo o medo foi embora. No hostel conheci Lirón, da Dinamarca, e fizemos juntos alguns mergulhos. Os primeiros foram até 12 metros de profundidade. Já dava pra sentir a incrível paz de se estar no mundo submarino. O avançado consiste no mergulho a 30 metros tanto de dia quanto de noite. Na primeira vez que chegamos a essa profundidade, eu tive a famosa narcose nitrogênica, quando o cérebro fica saturado com o nitrogênio alterando os reflexos, o raciocínio e o poder de decisão. É quase como fumar um baseado, só que embaixo d’água. Eu fiquei tonto e sinalizei para meu instrutor Jay que algo estava errado. Ele rapidamente me levou para cima. A 12 metros eu recuperei um pouco o raciocínio. Mas ainda estava em pânico, com a pressão acelerada. Fui me acalmando pouco a pouco. Estes efeitos ocorrem com alguns poucos mergulhadores de primeira viagem que chegam próximo aos 30 metros. Eu fui premiado. Mas só ocorreu uma vez. Nos outros mergulhos profundos tudo se deu normalmente e eu achei fantástica a experiência. É algo para nunca se esquecer e para sempre se repetir. Dahab também é muito barata, os hotéis, a alimentação e o transporte. Nem parece que você está em um paraíso de tão barato que são as coisas. Até pela distância, é um lugar meio alheio ao que acontece em Cairo ou em outos pontos do país. Tanto que lá não se sentia os efeitos da turbulência pela qual passava o Egito na época entre a revolução de 2011 e o golpe de estado de 2013, no qual os militares, auxiliados pelos Estados Unidos, depuseram um governo legítimo e democraticamente eleito.
Eu continuei a viagem. Subi o Monte Sinai antes do nascer do sol. Lá, segundo reza a Bíblia, Moisés teria recebido as tábuas da lei diretamente do Senhor. Resta saber como ele comprovou a autenticidade das tábuas, mas isso é outra história. Fui então para Cairo. Uma cidade no mínimo caótica com um trânsito bem difícil de entender. Pra atravessar a rua, a dica era fechar os olhos, abrir o coração e seguir em frente hehe. Tudo era muito barato lá. Havia até um serviço similar ao bom prato e com apenas R$1,00 era possível comer. Visitei lugares bem interessantes. Primeiro e óbvio, as grandes Pirâmides de Gizé e a famosa Esfinge. São grandiosas e é possível entrar em algumas delas. Se o mundo acabasse, seriam um ótimo abrigo, porém faltavam alguns dias ainda. Já a Esfinge, apesar de colossal, não é tão bonita quanto se pinta nos filmes. Mas deixo para avaliação do leitor quando tiver a oportunidade de visitá-la. Fiz o passeio das pirâmides a cavalo e é realmente divertido andar por lá. Me sentia num faroeste caboclo. Escalei uma das pirâmides menores e consegui ótimas fotos. Cairo ainda conta com uma vila-cemitério urbana, com isso quero dizer que as pessoas moram no cemitério. Eu vi até escolas no local. Entrei em umas das tumbas e o rapaz explicou que dormia ao lado de um dos esqueletos. Chocante. Já o museu egípcio de Cairo é fantástico, mesmo para quem não gosta, há tantas relíquias e preciosidades que um dia apenas não é suficiente. Destaque para a máscara de ouro de Tutancâmon.
Era 19/12 quando peguei o super econômico trem para Aswan. São 16 horas de viagem sem serviço de bordo e sem escalas. Venha preparado. Como não tinha alimentos comigo, as outras pessoas do trem começaram a me oferecer comida. É como eu digo, as pessoas mais simples são as mais humanas e cordiais. Quanto mais rica, mais provável é que a pessoa seja sórdida e desumana. É óbvio que não é uma regra geral. Encontrei na cidade um grupo de conhecidos  japoneses e eles me indicaram o hostel. Lá marquei a ida aos templos de Abu Simbel para o dia seguinte às 4h da manhã. Em uma van, fomos em dez pessoas. Eu sentei no fundo do carro e ao meu lado, uma russa, Victória. Estava sozinha e conversando descobri que ela também temia o fim do mundo. Tivemos afinidade imediata. Estava de férias havia dois meses e caso o mundo não acabasse, voltaria para a Rússia no dia 22. O templo é incrível e um prato cheio para quem gosta de história, com muitos hieróglifos nas paredes, estátuas colossais e uma visão panorâmica do Nilo sem igual. Após a visita, nós decidimos passar a última noite no deserto. Pegamos o trem para Luxor. Já era noite e tomamos um táxi com destino ao deserto, por mais estranho que isso possa parecer. O taxista não entendia o nosso destino. Perguntava onde ficava o hotel. Eu com o GPS apenas indicava as direções para ele, porém eu também não tinha muita certeza sobre o local. Após meia hora ele começou a ficar em pânico e já estávamos bem afastados de Luxor. Ao passar por uma rua de terra, um morador local perguntou o que ele fazia com dois viajantes por lá. Aí começou a confusão. O morador tinha poder de polícia e poderia fazer uma denúncia caso acontecesse alguma coisa conosco (veja como eles se importam com os viajantes). Após 20 minutos de discussão, o táxista já estava bem alterado e optamos por voltar para o centro de Luxor. Lá, levamos mais uma hora até achar um hotel decente. Hotel Nefertiti, nome perfeito. Caso acabasse o mundo, eu estaria nos braços de Nefertiti hehe. Eram 22h, e nós praticamente esquecemos de tudo, até mesmo do fim do mundo. Ele já poderia acabar e estaríamos felizes…
Mas ele não acabou. Diante dessa situação inesperada, a russa voltou para a Rússia no dia seguinte e eu, após participar de um casamento muçulmano em  Luxor, peguei o avião nas vésperas de Natal para Nairobi começando então uma viagem por outra África, mais brutal, mais dura, mais abandonada… Fica para a próxima.

Lucas Ramalho

Tudo ok
Tudo ok
No fundo do mar
No fundo do mar em Dahab
O mundo submarino
O mundo submarino
Eu e a equipe de Mergulho: Lirón, Jay e Toxico!
Eu e a equipe de Mergulho: Lirón,  Toxico e Jay, meu instrutor!
Indo de bike mergulhar
Indo de bike mergulhar
Eu e Lirón da Dinamarca em Dahab
Eu e Lirón da Dinamarca em Dahab
Monte Sinai
Monte Sinai
Visita ao Monte Sinai
Visita ao Monte Sinai
Muamba na travessia para o Egito
Muamba na travessia para o Egito
Túmulos dos mergulhadores que se arriscaram nas águas profundas de Dahab
Túmulos dos mergulhadores que se arriscaram nas águas profundas de Dahab
Monte Sinai
Monte Sinai
Curso de Mergulho em Dahab
Curso de Mergulho em Dahab
Nada como dormir no capô de um carro pela cidade
Nada como dormir no capô de um carro pela cidade
De cavalo pelas pirâmides
De cavalo pelas pirâmides
Gizé
Necrópole de Gizé
Chutando a Pirâmide
Chutando a Pirâmide
Um beijo na Esfíngie
Um beijo na Esfíngie
As pirâmides
As pirâmides
Dando uma força para que a pirâmide continue de pé
Dando uma força para que a pirâmide continue de pé
Vou colar este adesivo no meu carro: no girls
Vou colar este adesivo no meu carro: No Girls! hahahha
Sim. É possível beber cerveja no Egito.
Sim. É possível beber cerveja no Egito. Detalhe para a mochila do Chaves Egípcio.
Eu tenho a Chave
Eu tenho a Chave
Eu e a Russa em Aswan
Eu e Victória em Abu Simbel
Esculturas de Aswan
Esculturas de Abu Simbel
Templo de Aswan
Templo de Abu Simbel
Bora assistir?
Bora assistir?
Templo de Luxor
Templo de Luxor
Casamento Muçulmano em Luxor
Casamento Muçulmano em Luxor
Pescando em Luxor
Pescando em Luxor
Turbulência em Cairo
Turbulência em Cairo
Dormindo com o esqueleto
Dormindo com o esqueleto. Ele realmente dorme ao lado da caveira.
A Vila-Cemitério
A Vila-Cemitério
Cairo em Matrix
Cairo Matrix

 

 

 

Surfando nas ondas de Cairo
Surfando nas ondas de Cairo

 

Estranha Comédia

Pare um instante, pare agora
Olhe tudo ao teu redor
Quando foi que você cantou pela última vez?
Quando foi que esqueceu de cantar?
Quando foi teu último beijo?
 
Não precisa responder
Nem pense em pensar
Apenas olhe agora ao teu redor
Veja a criança a sorrir
A moça a sussurrar
A vida a fluir
 
Sem sequer se preocupar
Com o que irá acontecer
Olhe agora ao teu redor
 
Não feche a cara
Nem sequer resmungue
Um dinheiro a mais tanto faz
 
No final das contas
Quem sempre segura as pontas
Melhor se satisfaz
 
Debaixo da terra não se pode sacar
Não há cheque-defunto nem nada pra escanear
Pouco importa se é visa ou mastercard
 
Mas se você ainda se preocupa
Como vai comprar tua sorte
Veja que para o anjo da morte
Pouco importa fraco ou forte
Pobre, vagabundo ou superstar
 
Olhe, olhe agora sem temer
A vida que hoje te faz ver
Amanhã vai te cegar
 
Amansa o passo, aperta a rédea
A vida é uma estranha comédia
Que te faz rir te faz chorar.

 Lucas Ramalho

Cairo

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